sábado, 14 de junho de 2008

Eterna lembrança de alguma coisa sem brilho.

Era quase meia-noite, no dia 20 de janeiro. Num quarto de hospital estavam uma criança, Allura e a sua avó, Madhava, que em alguns minutos completaria 56 anos de vida.
Allura sofria de câncer e, mesmo doente, tinha no rosto o encantamento de um bebê que faz sua primeira bola de chiclete. Madhava suportava cada segundo de dor com esperança de que aquela fosse a última cirurgia, o último furo, a última parada; cada dia lhe parecia uma eternidade. Havia dias em que Allura não abria o olho de tamanha que era a sua languidez e Madhava cantava pra ela uma canção que gostava...
(...)se uma lágrima cair do meu olhar, não leve a mal
é o meu coração querendo te encontrar.

ela sorria, vacilante, e abria os olhinhos quebrados.

Naquele dia, a menininha tinha recebido muitas visitas e curtido de todas as estripulias que uma criança gosta, ainda que tão debilitada, e dormiu por algumas horas.
Acordou, já era madrugada do dia 21, lembrara que era aniversário da pessoa que mais demonstrou dedicação a ela naqueles 3 sofridos anos e pediu para que a avó, que a observava, a deixasse sozinha até que ela chamasse novamente. Madhava obedeceu, e saiu distribuindo carinhos; qualquer momento, poderia ser o último. Allura pegou o telefone e ligou pra uma das suas tias e pediu pra que ela trouxesse, logo pela manha, um bolo bem grande e quadrado, todo de chocolate, tinha que ser bem bonito e sem esquecer do refrigerante!
Ah, Allura! Tão doce que era...
Madhava retornou ao quarto, junto com uma de sua filhas, e a bonequinha voltou a dormir enquanto elas revesavam o sofá.
Às oito da manhã, Allura acordou se queixando de pouco oxigênio. A tia se levantou e chamou alguma enfermeira pra trocar. A avó acordou nesse minuto. A enfermeira entrou, e a garotinha já tinha um olhar distante...sorria para o nada.
Madhava, que já sentia a garganta apertada, acariciou a mocinha na maca e saiu, explodindo em soluços! Sentiu o chão descer, e uma amargura infinda!
- ela partiu sorrindo! - Alguém lhe soprou ao lado
Ela sabia que era muito sofrimento pra uma alma tão pura, mas não era justo! Era um bebê que pagava pelo pecado de quem, meu Deus? Teria sido o bolo de aniversário o caixão de Allura? Ter que digerir a idéia de que alguém se ía? Àquela seria a lembrança lhe cortaria o peito a cada aniversário e tudo lhe pareceu sem vida...sem cor, sem brilho. Era preto e branco.
Tamanha revolta lhe invadiu por algumas horas...mas precisava acreditar que era o descanso de Allura. Era o descanso de Allura!

E que todos os anjos digam amém.

PS: hoje, Allura completaria 10 anos.

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